O Blog

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Análise: BROTHERS - A TALE OF TWO SONS


     Com a atual geração de consoles chegando ao fim é possível notar o salto de qualidade nos enredos desenvolvidos em alguns jogos. “Brothers – A Tale of Two Sons” é um exemplo da preocupação que os desenvolvedores demonstram em proporcionar uma experiência complexa e intimista através de um jogo eletrônico.


     A Starbreeze Studios, em parceria com o cineasta libanês Josef Fares, lançou “Brothers” na metade de 2013 com a intenção de mostrar como uma narrativa sólida pode tornar um jogo memorável. O game possuí um enredo de simples entendimento, dois irmãos (um no final da infância e o outro no começo da adolescência) perderam a mãe recentemente e, diante de uma doença súbita do pai, precisam buscar o único remédio que pode salvá-lo. Entretanto, essa premissa se torna muito forte depois que alguns elementos são adicionados através de cutscenes e interações in-game.
     O jogo começa mostrando como os irmãos perderam a mãe de maneira trágica e deixa explícita a diferença entre as personalidades dos dois. Isso faz com que o jogador também sinta a urgência em salvar o pai deles, o único parente que restou. Os primeiros minutos deixam claro que o mundo retratado não é o nosso, a língua foi criada para o jogo e não passa de um conjunto de fonemas ininteligíveis. Sendo assim, o jogador não entende nenhum diálogo e precisa se atentar ao tom de voz dos personagens, a velocidade do discurso e aos gestos. A verbalização, ao longo do jogo, vai se mostrando desnecessária e, mesmo sem entender uma palavra sequer, é fácil compreender o que é dito.


     Um dos pontos altos do jogo é a forma como a personalidade de cada irmão fica evidente através de interações simples. Um dos primeiros cenários visitados se trata de um vilarejo, cada irmão pode interagir individualmente com os habitantes e ao fazê-lo, por exemplo, com uma mulher varrendo o quintal, o irmão mais velho pega a vassoura e a ajuda enquanto o mais novo prefere equilibrá-la e brincar. Ao interagir com uma harpa o irmão mais velho falha e o mais novo consegue tirar um som calmo e agradável.
     Através de cada interação você conhece mais cada irmão e passa a gostar ou se identificar com eles. Ao longo das 3h20 (em média) de jogo, o carisma dos personagens aumenta e as atitudes tomadas por ambos impacta mais na experiência do jogador.


     A jogabilidade é a principal novidade que o jogo apresenta, tanto que mesmo na versão para PC é obrigatório ter um controle. Decisão tomada para preservar a experiência do jogador. É como se o controle fosse dividido ao meio, com o gatilho e direcional analógico da esquerda se controla o irmão mais velho e com o gatilho e direcional analógico da direita o irmão mais novo. Durante todo o jogo é necessário controlar os dois ao mesmo tempo e realizar tarefas em conjunto (enquanto um puxa uma alavanca o outro gira uma manivela). Em um primeiro momento isso causa estranhamento mas depois se revela divertido e desafiador. Só em alguns trechos a movimentação da câmera atrapalha e confunde o jogador ou a necessidade de sincronia entre os dois incomoda.
     Há pouca diferença entre os irmãos, no que diz respeito à jogabilidade o irmão mais velho é mais forte e apenas ele consegue puxar alavancas, além de andar um pouco mais rápido. Já o irmão mais novo, devido ao tamanho, pode passar entre grandes e acessar alguns lugares específicos. Também é importante ressaltar que as tarefas em conjunto se tornam mais complexas no decorrer do jogo, aumentando a dificuldade e mostrando a importância do relacionamento entre os irmãos. A jogabilidade serve como um elemento que favorece o enredo e demonstra o quanto o sentimento fraternal é forte entre os protagonistas.


     Em relação aos gráficos os desenvolvedores fizeram um bom trabalho. Os detalhes que os ambientes menores tiveram na hora da programação se mostram bem realizados, porém, nada que impressione. A movimentação dos personagens é boa, até mesmo nos secundários (como os trolls e o hipogrifo). Somente em alguns pontos os gráficos deixam a desejar, como em um vale no qual aconteceu uma batalha de gigantes. Os corpos possuem uma textura estranha e, por causa da grande escala, fica evidente a falta de cuidado com essa parte do jogo.
     No quesito gráfico a melhor parte fica com os cenários mais amplos, como a vista do topo de uma montanha ou do interior de uma caverna. Os desenvolvedores parecem ter se orgulhado disso e espalharam pelos cenários alguns bancos estrategicamente posicionados para uma apreciação mais calma. Ponto para o enredo, que através de uma medida simples consegue ampliar a ideia de um universo belo e cruel ao mesmo tempo.


     A trilha de “Brothers” parece demonstrar que Josef Fares, que dirigiu a produção do game, tem origens no cinema. Existem cenários em que a música deixa transparecer o clima do momento e em outros o som ambiente é evidenciado para mostrar o quanto o universo do jogo é orgânico. 
     “Brothers – A Tale of Two Sons” é um grande exemplo de como o mercado de jogos indie tem muito a oferecer. Sem uma campanha publicitária ostensiva o game se tornou conhecido do público pela qualidade do produto final. “Brothers” causa uma grande imersão no jogador por criar um universo fantástico e, ao mesmo tempo, realista em suas consequências. É um jogo sobre relacionamentos que cresce e possui uma conclusão que coloca as emoções do jogador no mesmo nível dos gráficos e da jogabilidade. Uma obra de arte inesperada travestido de game de aventura.


Confira no Metacritic: http://goo.gl/tLy6gP
Compre na Steam: http://goo.gl/FP6CGT